Pegue meu amor e o destrua, faça-o virar pó...
Pegue minha vida e a mude, desfaça a dor...
Como posso lidar com as mudanças em minha vida, como atravessar o tempo?
O que é o amor?
Construí minha vida ao seu redor e agora a mudança me faz uma cerca que protege o vazio.
Se eu fosse um pássaro com a asa quebrada, esse seria o fim?
O tempo passa, todos envelhecem, até mesmo eu. Você vai embora, mas eu vou sempre estar aqui.

Amarei mesmo na distância.
Morrerei com a ausência.
Olharei para as fotos do passado.

Verei nossos dias mais lindos.
Ouvirei sua voz em cada pôr do sol.
Cuidarei para jamais esquecê-los.
Estarei aqui quando voltar.

Farei com que nunca fique só.
Resgatarei a alegria.
Assim que você voltar.
Nunca a esquecerei...

Eu sou o passageiro...


São Paulo, 22:58
Estação São Joaquim do metrô

Sentado, sozinho ele pensa.
Apesar de estar em um local público, cercado por centenas de pessoas, ele está sozinho. Sua solidão vai muito além da convivência ou do espaço físico. Ele está mental e emocionalmente sozinho. Sua capacidade de relacionamento inter-pessoal continua a mesma. É carismático quando tem que ser, sociável e jovial. Mas quer saber a realidade? Ele não é assim.
Depois que fatos mudaram seu mundo, ele tem medo de se comunicar com as pessoas. Medo de se envolver e acabar se machucando como da última vez. Além de sempre ao fazê-lo procurar algo em comum, como da última vez.
Sozinho, e ao mesmo tempo sem estar, ele entra no metrô. A música alta o impede de querer gritar, mas também o impede de se relacionar. Qualquer pergunta a ele direcionada é automaticamente interpretada como se direcionada a um poste. A resposta é sempre a mesma: apatia e silêncio.
O barulho do metrô só não é maior do que o barulho da vontade de gritar que ele tem dentro de si. Está há muito tempo em uma situação que qualquer pessoa passa pelo menos uma vez na vida, mas, diferentemente das outras pessoas, sua forma de ver o mundo o impede de superar, de ultrapassar, de seguir em frente. Fica como que preso ao passado, porque seu passado é presente e, ao mesmo tempo que lhe machuca, é ainda a única coisa que lhe faz sorrir sinceramente.
Nunca foi pé no chão e sempre teve a mania de divagar e sonhar acordado. O escapismo sempre fez parte de sua vida, mas hoje ele é mais presente do que nunca. Cinco minutos em silêncio já são o suficiente pra voar de um mundo de tristezas e alegrias incompletas, para um mundo só seu, onde a perfeição toma forma e ele consegue ser feliz com quem ama. Os sonhos são o alimento da alma, como diria o provérbio.
Mais uma estação. As pessoas descem e seguem para suas casas. Felizes ou tristes, elas seguem. Talvez com problemas parecidos, mais sérios ou situações adversas que necessitem da mesma reflexão. Todos vivendo, com suas angústias ou alegrias, menos ele.
De todos que estão no metrô, pelo menos naquele vagão; pelo menos que ele mesmo sabe. De todos, ele vive mais a vida de outra pessoa do que a sua própria. O que ela faz, o que ela pensa, com quem está, como está. Será que quer falar, será que quer uma mensagem. Sua vida é constante e presente, mas não em sua vida.
Pessoas tentam se relacionar com ele, buscam nele algo que sabem estar ali, adormecido, esquecido. Tentam resgatar essa alegria vencida, mas tudo o que conseguem é uma alegria momentânea, que logo é assombrada pela tristeza de uma vida incompleta. Ele não é bem o culpado, só não sabe mais como ser feliz como antes. Nem todos entendem e, ou saem magoados, ou ficam com raiva achando que ele deve passar a página. Mas certos livros são vivos, reescritos sob a mesma página, mas que mantém sempre o mesmo prefácio.
Última estação, hora de pegar o ônibus e dormir. Ele escolhe seu lugar de sempre no ônibus quase vazio, se senta e vira pro canto. A avenida vista da janela trás um mundo de possibilidades a quem queira ou consiga seguir. Pra ele, basta seguir a maré de carros e ir onde o motorista o levar. Não é senhor de seu próprio destino. Não mais.
Com alguns minutos ele dorme, e entra em seu mundo de sonhos perfeitos, sempre com a promessa de que o dia seguinte virá com uma boa notícia. A esperança faz parte de sua rotina e ele almeja sempre que ela algum dia faça valer a pena os anos de espera.
Boa noite e bons sonhos, Cris.

É...


Você me pergunta sobre minhas tristezas, sobre minhas angústias, sobre meu eu depender de você.
Você me pergunta o motivo de eu ter mudado, de não voltar a ser o mesmo, de minha personalidade ter sido lapidada.
É como uma sinfonia agridoce. Sentimentos confusos, o tempo marcante, impiedoso, e a mudança... Não convivo com mudanças. As coisas têm um padrão por seus próprios motivos, sem razão aparente. Tudo gira em uma sintonia arrogantemente natural, onde a mudança faz parte do conceito de viver.
A crueldade gerada pelo óbvio consegue ser mais dura do que a própria morte. Mas como aceitar tamanha carnificina de sentimentos se nem ao menos entendemos como funcionam? Qual a razão do desespero?
Qual o sentido das lágrimas se na verdade não se perdeu nada? Chorar não trás de volta, mas infelizmente ameniza a dor. Não me peça para parar de chorar, apenas me ajude a enxugar as lágrimas. Não necessito de conselhos, o que eu preciso ninguém me dará. Na vida estamos fadados a fracassar, vez por outra conquistar, para depois perder novamente.
Qual o sentido da vida? Se houver algum, é mais nebuloso do que tudo que já se viu.
Desisto de tentar entender, de me entender, de esquecer, de superar, de me confortar, de me relacionar. Abro mão da tentativa de felicidade e trago pra mim a máscara de palhaço. Essa conforta, agrada e é apresentável. Cativa, faz rir e todos gostam. Se ela é útil? De certa forma. Faz com que os outros parem de ver o mundo com um local prático onde tudo pode ser mudado. Não pode, certas coisas jamais irão mudar e eu sou uma dessas coisas. Sei disso e vou tentar aprender na prática, mas não prometo sorrisos sinceros.
Sobre as perguntas no começo, elas tem uma resposta. Ela é tão óbvia que dispensa a si própria.
Às vezes olhamos para o lado tentando enxergar o fresta de sol que vem pela janela, mas não vemos que ela é apenas o reflexo do mesmo raio que bate no espelho ao seu lado, muito mais forte. Cegos pela janela de nossa própria tentativa. O sol brilha todos os dias, sempre no mesmo lugar, o espelho está lá, basta olhar, antes que quebre.

Perguntas

O que é o amor? É o máximo sentimento de afeto que um ser humano consegue ter, seja por alguma coisa ou alguém. Mas o que define o amor é realmente o pensamento humano ou o sentimento em si independe das relações humanas? Somente o homem é capaz de amar, ou essa é uma característica que todos possuem, mas que somente o homem consegue expressar?
O que é a felicidade? É o sentimento de máxima alegria que uma pessoa consegue ter em um curto ou longo espaço de tempo. Define-se por estar feliz ou ser feliz. Esse é um sentimento que pode-se dizer apenas humano. Todas as relações que partilhamos contém ao menos uma ínfima parte desse sentimento; as demais espécies podem sentir-se satisfeitas ou até mesmo conformadas, mas a felicidade é humana.
O que é a raiva? É um sentimento negativo que uma pessoa sente por alguma situação ou por alguém. Expressa-se de várias formas, mas todas em comum um motivo central a ser visualizado e odiado. A máxima da raiva é o ódio, que tem seu sinônimo no rancor.
Há, contudo, uma ligação entre os três; ligação essa que nem mesmo uma máquina projetada apenas para isso poderia compreender ou encontrar uma equação que encaixasse o perfil e explicasse de forma sucinta essa ligação.
Quem ama consegue ser feliz, quem ama e não tem não é feliz e tem rancor. Quem tem rancor pode amar, mas jamais será feliz. Quem é feliz e não ama pode não ter rancor, mas sua felicidade é no curto espaço de tempo. Quem ama tem sua felicidade no longo espaço de tempo, mas está sujeita a raiva em momentos esparsos.
Não há felicidade sem tristeza, tristeza sem rancor e muito menos raiva sem amor.
O bom da vida é poder amar, mas quem ama pode dizer que na arte de amar há momentos em que há que se odiar. Mas nesse caso o ódio é vencido pelo curto espaço de um beijo. Só assim se é feliz.

Na Loja de Brinquedos


Soldado de Chumbo manco a andar pela esquina. De todo seu porte nada se suporta, por causa da perna manca. Seu andar é lento e suas passadas pequenas. Pela rua logo se sabe quando ele se aproxima, é um barulho compassado, meio chiado e um pouco irritante de metal contra o chão da loja.
Os soldados não o mantém por perto, só ficam com suas táticas e jogos e não querem o defeituoso ao lado. Atrapalha, dizem eles, e deixa o andar sem ritmo. Pelas fileiras de brinquedos, todos nas caixas, ele é o único a vagar pela escuridão da loja. O barulho metálico ecoa pelos corredores. Para disfarçar, ele canta.

Lonely
I'm mr. lonely,
I have nobody,
only my own...


Passando por um canto, onde ficavam os brinquedos mais velhos, ele vê uma linda caixinha de música com uma bailarina. A caixinha caiu do topo da estante, se partiu e começou a tocar. Quando ele olha, a bailarina está no meio da apresentação. Ela gira em torno de si mesma e se movimenta sobre o tablado da caixinha, com uma leveza que o encantou. Ele parou ao longe e começou a ouvi-la cantar.

I hear the ticking of the clock
I'm lying here the room's pitch dark
I wonder where you are tonight
No answer on the telephone
And the night goes by so very slow
Oh I hope that it won't end though
Alone...


Ele decide que não precisa mais ficar sozinho e que tudo o que sempre procurou estava logo a sua frente. Se encaminhou, com seu andar barulhento e cheio de 'cliques' até ela. A cada passo ele reconhecia que ela era seu amor, tudo o que lhe faltava, tudo o que preencheria sua vida.
Chegando aos pés da caixinha ele resolve falar com ela, mas vê que ela parou de se mover. A música havia cessado, o movimento da bailarina terminara e com o fim da corda não voltaria. Toda a magia havia terminado. Ele se via novamente no escuro, sozinho, a contemplar a bailarina imóvel na caixinha de música.
Ele abaixou a cabeça, sentou-se ao lado da caixinha e dizem que nunca mais se moveu.
A loja funciona ainda, vende seus brinquedos, mas o dono jamais joga fora os brinquedos, mesmo os quebrados. O soldado é sempre mantido ao lado da caixinha com a bailarina e há brinquedos que dizem ainda o escutar cantar baixinho em algumas noites.

Lonely
I'm mr. lonely,
I have nobody,
only my own...

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