"Into the Unknown"

Neblina. Uma longa estrada reta. Corpos por toda a extensão da estrada, margeando seus contornos. Frio, vento, e esparsas gotas de chuva. Um homem a caminhar no meio da estrada.
Seu olhar focaliza apenas o que há na frente, sem se importar com os corpos, o cheiro que deles exala; ou talvez nem se dê conta disso.
Seus pés descalços estão feridos de tanto andar, seus olhos estão turvos e irritados pelo vento e suas roupas rasgadas até o meio de suas pernas. Sua boca está ressecada e quebradiça, pois ele não bebe nada há vários dias, desde que aconteceu. Seu andar é torto e pende para o lado esquerdo, onde ele fraturou a rótula.
Por sua mente paira a angústia por não ter podido fazer nada pelo que houve. Quando disseram que o ar seria irrespirável e a água em poucos dias estaria imprópria para o consumo, ele estocou o máximo que pode. Não queria sair de seu lugar, mas não queria morrer também. Comida para várias semanas, água, se racionada, para umas duas ou três semanas e ar respirável, obtido por uma máquina em seu porão. Tudo isso, para três pessoas. Ele, a mulher e o filho.
Na primeira noite o alarme soou na cidade, o exército chegara para deslocar as pessoas da área em risco. Um jovem soldado gritou com ele, dizendo que aquilo era suicídio. Ele o ignorou e continuou embaixo, crente de que o perigo se dissiparia. Estava enganado, mas não foi esse o problema.
Na segunda noite, seu filho teve crise de asma, e ele se deu conta de que todos os seus aparatos de sobrevivência não garantiam ainda o ar do filho. Na quinta noite, após muito sofrimento, o filho morre nos braços da mãe.
Ela o culpa por não ter seguido junto com as outras pessoas e o exército, pois assim seu filho estaria vivo. Ela o culpa por se preocupar mais com o lugar em que estão do que com quem esteja com eles.
Os dois se dividem no porão. A mulher fica com o canto ao lado da máquina de lavar, onde há uma janela, e ele fica embaixo da escada, onde ela não poderia ver o rosto dele. Ela já amou esse rosto, mas agora sente nojo.
As noites são cortadas por pessoas gritando nas ruas. O veneno demora para matar, mas enquanto não o faz, ele causa dor aguda nos pulmões. Leva por volta de seis dias para morrer, antes disso você sangra pelo nariz e suas gengivas estouram. Sua língua incha e seus olhos marejam. Os gritos dessa noite são de um homem. Ele vê as luzes no porão e implora para deixarem-no entrar. Suas narinas estão vazando sangue e sua pele tem uma tonalidade amarelo escuro. A mulher fecha a janela e deita-se chorando e dizendo em voz baixa o nome do filho.
Na noite seguinte, já não havia mais os gritos do homem do lado de fora. Havia apenas seu corpo tapando a janela perto da máquina de lavar. Ficar ali sem fazer absolutamente nada já era ruim por si só, mas os dois não estarem se falando era pior ainda.
Na décima noite a mulher começou a falar sozinha. Isso assustou o homem, mas ele se recusou a chegar perto dela, pois quando ameaçava fazê-lo ela o olhava com olhos de ira contida.
Na manhã seguinte, ao acordar, o homem se vê sozinho. Sua mulher já não está lá. Jogando fora todo o cuidado com ar, ele sai do porão e volta para casa. Na cozinha vê que a mulher cortara os pulsos.
De tão espantado com a cena ele não consegue esboçar emoção na hora, apenas seus olhos se arregalaram e ele caiu de joelhos. Depois de olhar bem para a cena ele coloca o rosto entre as mãos e chora copiosamente. Por tentar manter a vida o mais parecida com o que era anteriormente ele perdeu tudo o que mais amava. O filho, que quase não viu a vida e a mulher que ele tanto amava e que no fim passou a odiá-lo; morreu odiando-o.
Ele abre a porta e sai. Não interessa o caminho e nem se ele vai morrer em seis dias. Já não importa o que o mundo lhe reserva.
Pelo caminho ele vê as pessoas que, como ele, acreditaram que aquele lugar poderia ser o mesmo e que tudo voltaria ao normal um dia. Tolos. Prender-se ao passado às vezes pode ser fatal e eles aprenderam da pior maneira. Seus corpos estavam azulados e fétidos por toda a extensão que ele percorria. A área de contenção se estendia por mais de quarenta quilômetros. Por mais que ele andasse, sem água ou comida, não alcançaria a borda. Mas nem era isso que ele queria. Só queria andar.
O vento, a neblina tóxica, o cheiro dos corpos e a chuva ácida que cai. Não importa. Ele não tem mais nada, nem mesmo o direito de continuar vivo, já que foi o responsável direto pela morte de duas pessoas.
Após cinco dias andando chegamos a situação do início da história. Ele está prestes a chegar à borda. Já avista a cerca do exército e os guardas que o observam e já começam a buscar ajuda. Ele se ajoelha, pedindo perdão pelos erro que cometeu. Foi egoísta, mas agora poderia quem sabe começar uma nova vida, uma nova família em uma cidade diferente, onde ninguém saberia o que ele havia feito.
Os guardas caminham em sua direção. Sua visão é turva e ele não os vê direito.
A última coisa que ele ouve é uma arma sendo engatilhada e a voz de um jovem oficial dizendo para um outro:
"-- Outro. Esse eu mesmo tentei trazer, mas ele se recusou. Agora já era."
Toda a região deserta reverberou ao som do disparo, mas o homem nem chegou a escutá-lo. Tombou no chão arenoso e o sangue vazou de sua têmpora.
Era uma vez, um idiota.

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