Viajante das estrelas



Um homem passa.

Poucos são os que o vêem realmente. Poucos são os que notam sua passagem. Ele anda de deserto em deserto, de charneca em charneca e não para. Jamais olha pra trás, pois o que ele deixou já não importa. Amigos, família, amor. Esse homem não tem mais nada. Seu destino é o mundo e o que o mundo lhe der.
Ele anda pelos campos nevados durante a noite, observando o céu e as estrelas. Tudo que ele deseja é sair voando por elas. Passar por Júpiter e cair em Europa, onde poderia passar eternamente em silêncio, sem jamais escutar uma voz humana de novo. Os acontecimentos recentes em sua vida lhe fizeram aumentar o desprezo que ele já tinha pela humanidade. Esse desprezo virou nojo, que virou pena. Desejaria jamais ser humano para não ter que conviver com humanos e nem ter as emoções humanas. Foi justamente a solidão que fez isso com ele, mas agora é o que ele mais deseja. Solidão, vazio e silêncio.
Qualquer palavra quebraria o transe delicioso do silêncio.

Ele se imagina vagando pelos planetas onde a raça humana não habita, e onde ela não está. O motivo dessa mudança em sua vida se encontra em meio aos humanos e suas emoções, que agora ele só partilha a dor, o pesar, a solidão e a tristeza.
Ele sai de Europa e passa pelo calor de Io, mas não deseja calor, deseja frio. Segue pelo Sistema Solar em busca de solidão e vai parar em Plutão. Mas se dá conta que qualquer lugar ali ainda é perto demais de sua dor.
Sai da Via-Láctea e se dirige à Andrômeda. Quem sabe não encontra uma raça menos dolorosa que a humana. Ao passar por um planeta vermelho ele desce. Lá encontra uma raça que o transtorna, por ter a mesma tonalidade dos olhos do seu motivo de solidão. Sai em disparada. Em sua fuga ele cai em um planeta cor de rosa, com criaturas aladas com lindos olhos cor de mel e cabelos encaracolados cor de trigo. Milhões, talvez bilhões dessas lindas criaturas ao seu redor, fazendo seu coração quase parar de bater.
Ele sai desse planeta e volta ao Sistema Solar, onde fica na Lua. Agora ele sabe que qualquer lugar no universo é perto demais dela, e nada o fará esquecê-la, nem mesmo a completa solidão. Fica a olhar a Terra, imaginando que lá embaixo, em algum lugar, ela dorme e sonha.

Sai de seu transe e se vê novamente na paisagem nevada onde se encontrava. À sua frente há um lago congelado e no horizonte os últimos resquícios da aurora boreal. Entrará agora no período noturno dos pólos. Durante seis meses não haverá luz do dia. Ele se levanta e volta a caminhar rumo ao nada. Jamais dirá uma palavra outra vez, mas em sua mente há uma que não lhe é possível esquecer, mesmo sendo a que ele mais deseja.

Em meio ao frio dilacerante ele morre, mas de seus lábios sai apenas uma palavra em meio aos tremores e um esboço de sorriso. Pena que não havia ninguém para escutar...

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