O Fim da Terra


Capítulo Dois - Os Clamores

As pessoas não sabiam o que fazer. Seus planos, seus sonhos, seus desejos, foram todos varridos com aquelas palavras cheias de significado. Todos os seus anseios de vida já não faziam sentido.
Haviam os que choravam, pedindo aos céus por piedade; havia os que gritavam, sem conseguir de fato expressar palavra alguma, mas representando o desespero que assolava o mundo, havia os que se balançavam ou andavam de um lado para o outro, tentando organizar seus pensamentos, enquanto lágrimas silenciosas escorriam por seus rostos.
Mães consolavam os filhos que não conseguiam entender de fato o que estava acontecendo, pais desesperados abraçavam seus filhos, confortando-os e ao mesmo tempo buscando conforto.
O mundo vivia seu pior momento: uma catástrofe irremediável e com data marcada.

Capítulo Três - O Caso da Mãe e do Filho

Passado um dia e meio após o comunicado, as pessoas continuavam em estado de pânico. Muitas delas não conseguiam ou nem mesmo queriam seguir suas vidas.
Qual o sentido do dinheiro? Por que motivo trabalhar? Por que criar?
O glorioso mundo construído pelos humanos acabara de ruir. Seu ideal de vida já não existia. Seus planos de futuro agora eram de oito dias e só.
Tendo em vista o fim propriamente dito, muitas pessoas começaram a rever seus familiares menos vistos, seus amigos já há muito esquecidos e as brigas eram solucionadas.


Após três anos sem falar com o filho, que se envolvera em uma briga quando estava alcoolizado e esfaqueara um colega, uma mãe vai até a casa em frente a sua.
Durante três anos ela o via regar o jardim e recolher a correspondência, mas fingia ser um estranho e sequer cumprimentava seu próprio filho.
Ele passou seis meses em uma penitenciária do estado e ela tinha na consciência de que havia sido ela quem chamara a polícia para seu único filho, na época com dezoito anos.
Ela bate na porta com os nós dos dedos e aguarda; o coração retumbando de nervoso.

-- Um momento, estou indo.
Aquela voz. Ela ainda se lembra daquela voz todas as manhãs lhe desejando bom dia.
Uma silhueta alta vai aumentando na porta de vidro e ela se abre. Um homem magro, com uma camisa branca e cabelos castanhos surge na porta. Seu olhos verdes expressavam surpresa.
-- Mamãe... O que...
Ela não aguentou e o abraçou. Foi um abraço apertado e por ele correspondido que fazia valer por três anos sem carinho. Ambos choravam e não diziam nada, apenas o silêncio e o aperto daquele abraço eram necessários para passar todo o sentimento daquele momento.
-- Filho... -- era difícil falar, as palavras saiam entre os suspiros --, eu sinto tanto...
Ele apenas a abraçou mais forte, colocou a mão em sua cabeça e se recostou ao ombro dela.
-- Eu também, mãe.

Da escada veio correndo uma criaturinha vestida de rosa, com longos cabelos loiros.

-- Papai, papai, papai!!!
O sorriso da garotinha fechou e ela se sentou no sofá encarando os dois, que saíam do abraço naquele momento.

-- Papai, o que a vizinha bicuda tá fazendo aqui?

Em meio aos choros e soluços veio o riso dos dois, seguido por uma cara fechada da menininha, que pensava que estavam rindo dela.

-- Essa vizinha é sua vovó.
Ele a pegou no colo e segurou de frente para sua mãe, que não sabia se ria com o fato de ser avó e nem saber ou se chorava de emoção. A menina olhou pra ela e sorriu.

-- Gostei de você, vovó. Tem um cabelo tão bonito quanto o meu.

Os três riram e se sentaram no sofá, tinham muito o que falar. Ali renascia uma família.


[continua...]

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