Capítulo Quatro - Os Dois Amigos
Durante a infância eles eram inseparáveis. Um não conseguia brincar se o outro não estivesse por perto para brincar também. Moravam uma casa vizinha da outra e suas mães eram amigas, e também seus pais, que trabalhavam na mesma fábrica na cidade.
Seus dias eram ensolarados e alegres, naquele verão de 36, mas tudo mudou. Três anos depois, a amizade deles foi intensificada, mas de alguma forma algo se quebrou: o pai de um deles fora enviado para a guerra na Europa. Os dois ficaram mais ligados que nunca, mas seus dias perderam a magia que tinham antes, pois a preocupação não os permitia sonhar, e sem sonhos, não há infância.
No outono de 44, já com dezessete anos, o garoto recebe dois militares à sua porta, com uma bandeira e duas medalhas nas mãos, e as palavras que ele jamais queria ouvir: que seu pai havia lutado bravamente por seu país, mas que falecera em um campo na França. Os dois amigos que já estavam meio separados acabaram por tomar caminhos diferentes e não se viram mais, desde que o garoto órfão de pai havia sumido no mundo.
O outro o procurou, mas não obteve êxito na época. Mas os tempos mudam. Já com mais de oitenta anos, ele faz uma busca simples na internet, apenas como passatempo, e encontra seu amigo. Ele havia virado um escritor de sucesso e morava não muito longe dali, em uma casa que ele passara em frente nos últimos quarenta anos sem saber que seu amigo ali estava.
Ele passou a andar todas as tardes em frente à casa, na esperança de pelo menos ver o amigo, já que ele nem saberia como começar uma conversa, tantos anos depois.
Dia após dia, ele lá passava, e começou a ver algumas pessoas. Uma senhora de longos cabelos brancos, um jovem rapaz que se assemelhava muito com o amigo, embora fosse ligeiramente mais alto, uma mulher loira magra e um menino de uns dez anos, que corria pelo gramado perseguindo um gato. Havia, claro, a vontade de perguntar pelo senhor que ali morava, mas não havia a coragem, sem contar que ele não via o amigo.
Um dia ele, passando em frente, viu um senhor na janela do quarto de cima que o observava caminhar pela rua, enquanto arrumava as cortinas. Ele não soube o porque, mas aumentou o passo.
No dia seguinte, lá estava o senhor na janela de novo, e desta vez ele acenou a mão e foi correspondido pelo homem, mas não parou de andar. Assim foi por quatro dias, até que ele tomou coragem e foi bater à porta. A mesma senhora que ele vira o atendeu, mas ela estava chorando. Ele se apresentou o contou sobre ele e o marido dela, mas ela lhe deu uma notícia horrível. Ele falecera na noite anterior, mas, antes, havia escrito uma carta para ele. Ela lhe entregou a carta e perguntou se ele gostaria de ir ao enterro, naquela tarde. Sem conseguir expressar muitas palavras ele apenas assentiu com a cabeça e saiu rua abaixo com a carta, sem conseguir abri-la.
Chegando em casa ele se sentou na beirada da cama, olhando a carta em suas mãos, mas ele não conseguia abri-la, pois aquelas seriam as últimas palavras de seu amigo, e dessa vez para sempre, pois ele já havia escutado "as últimas" antes, quando se separaram em 44. Ele ficou horas parado ali, até que chegou a hora do enterro. Sem saber muito bem o que fazer ele pegou o casaco preto e saiu.
Em frente à casa haviam poucas pessoas, todas, pelo que pode notar, eram da família. Não havia mais pessoas assim como ele, de idade, eram todas jovens e haviam algumas crianças. Ele se sentiu estranho, mas a viúva o abraçou e eles foram no mesmo carro, sem trocar palavras.
O cemitério estava lotado, visto o aumento no número de suicídios desde o pronunciamento, mas o local preparado para ele era afastado, com uma árvore ao lado. O padre falava as palavras, mas ele só conseguia olhar para o caixão e pensar que seu amigo, seu grande amigo, estava ali. Olhou para a carta:
Seus dias eram ensolarados e alegres, naquele verão de 36, mas tudo mudou. Três anos depois, a amizade deles foi intensificada, mas de alguma forma algo se quebrou: o pai de um deles fora enviado para a guerra na Europa. Os dois ficaram mais ligados que nunca, mas seus dias perderam a magia que tinham antes, pois a preocupação não os permitia sonhar, e sem sonhos, não há infância.
No outono de 44, já com dezessete anos, o garoto recebe dois militares à sua porta, com uma bandeira e duas medalhas nas mãos, e as palavras que ele jamais queria ouvir: que seu pai havia lutado bravamente por seu país, mas que falecera em um campo na França. Os dois amigos que já estavam meio separados acabaram por tomar caminhos diferentes e não se viram mais, desde que o garoto órfão de pai havia sumido no mundo.
O outro o procurou, mas não obteve êxito na época. Mas os tempos mudam. Já com mais de oitenta anos, ele faz uma busca simples na internet, apenas como passatempo, e encontra seu amigo. Ele havia virado um escritor de sucesso e morava não muito longe dali, em uma casa que ele passara em frente nos últimos quarenta anos sem saber que seu amigo ali estava.
Ele passou a andar todas as tardes em frente à casa, na esperança de pelo menos ver o amigo, já que ele nem saberia como começar uma conversa, tantos anos depois.
Dia após dia, ele lá passava, e começou a ver algumas pessoas. Uma senhora de longos cabelos brancos, um jovem rapaz que se assemelhava muito com o amigo, embora fosse ligeiramente mais alto, uma mulher loira magra e um menino de uns dez anos, que corria pelo gramado perseguindo um gato. Havia, claro, a vontade de perguntar pelo senhor que ali morava, mas não havia a coragem, sem contar que ele não via o amigo.
Um dia ele, passando em frente, viu um senhor na janela do quarto de cima que o observava caminhar pela rua, enquanto arrumava as cortinas. Ele não soube o porque, mas aumentou o passo.
No dia seguinte, lá estava o senhor na janela de novo, e desta vez ele acenou a mão e foi correspondido pelo homem, mas não parou de andar. Assim foi por quatro dias, até que ele tomou coragem e foi bater à porta. A mesma senhora que ele vira o atendeu, mas ela estava chorando. Ele se apresentou o contou sobre ele e o marido dela, mas ela lhe deu uma notícia horrível. Ele falecera na noite anterior, mas, antes, havia escrito uma carta para ele. Ela lhe entregou a carta e perguntou se ele gostaria de ir ao enterro, naquela tarde. Sem conseguir expressar muitas palavras ele apenas assentiu com a cabeça e saiu rua abaixo com a carta, sem conseguir abri-la.
Chegando em casa ele se sentou na beirada da cama, olhando a carta em suas mãos, mas ele não conseguia abri-la, pois aquelas seriam as últimas palavras de seu amigo, e dessa vez para sempre, pois ele já havia escutado "as últimas" antes, quando se separaram em 44. Ele ficou horas parado ali, até que chegou a hora do enterro. Sem saber muito bem o que fazer ele pegou o casaco preto e saiu.
Em frente à casa haviam poucas pessoas, todas, pelo que pode notar, eram da família. Não havia mais pessoas assim como ele, de idade, eram todas jovens e haviam algumas crianças. Ele se sentiu estranho, mas a viúva o abraçou e eles foram no mesmo carro, sem trocar palavras.
O cemitério estava lotado, visto o aumento no número de suicídios desde o pronunciamento, mas o local preparado para ele era afastado, com uma árvore ao lado. O padre falava as palavras, mas ele só conseguia olhar para o caixão e pensar que seu amigo, seu grande amigo, estava ali. Olhou para a carta:
"Para Miguel, meu único amigo"
O enterro aconteceu sem muitos lamentos, posto que ele morrera já bem idoso e dormindo, sem dor nem sofrimento. Ele foi para casa, ainda com a carta nas mãos, sem abri-la. Não conseguiu dormir, visto que o mundo acabaria dali a dois dias, e resolveu abrir a carta.
Desceu as escadas, acendeu o abajur lateral, sentou-se no sofá, colocou seus óculos e abriu o envelope.
"Miguel, se você está lendo essa carta significa que eu já não estarei junto a vocês neste mundo. Foram anos de angústia e solidão os que se seguiram àquele outono de quarenta e quatro. Fui parar na África, em missão humanitária. Fiquei lá por volta de vinte anos, e tive que sair por causa de uma doença nas pernas. Voltei para a Espanha e encontrei Vivian, minha companheira de vida, que me aguentou até o fim.
Durante todos esses anos, mesmo tendo viajado e conhecido muitas pessoas, jamais tive um amigo depois de você. Nunca consegui me aproximar de outra pessoa como éramos próximos. Passei todo esse tempo com minha família. Tive três filhos e dez lindos netos, mas em reuniões de família jamais havia um amigo com quem eu pudesse falar dos tempos antigos.
Durante mais de trinta anos eu procurei por você, sem contudo saber nada sobre ti. Você se esconde melhor do que eu.
Quando recebemos o comunicado dias atrás eu pensei que jamais iria rever meu amigo de novo. Minha doença piorou e eu fui obrigado a ficar no quarto; logo eu que sempre gostei de andar.
Quando estava quase perdendo as esperanças você apareceu na rua. Reconheceria essa cara redonda em qualquer lugar. Vários dias se seguiram e você me cumprimentava, isso me aumentou as forças, mas você nunca entrava. Bobão, achou que eu não lembraria de você?
Mas, as coisas não aconteceram como o esperado. Minha doença é crítica (angina) e não resistiria por muito tempo mesmo, então escrevi essa carta. Se não resisti o bastante pra falar contigo amigo, me desculpe. Juro que tentei. Você foi e sempre será meu único amigo. Se Deus falou então ele existe, se existe, então existe céu e eu te espero lá. Até a próxima, Miguel.
Seu amigo, Ramón"
Ele ainda ficou um tempo no sofá, mas não conseguiu chorar. Era emocionante, mas ele não conseguiu ficar triste, já que Ramón havia morrido feliz.
No dia seguinte, faltando apenas um dia para o fim da Terra, Miguel vai ao cemitério deixar flores, e se emociona com a lápide.
"Solitário, mas jamais sozinho"
Com os olhos marejados ele depositou as flores e fez uma prece de agradecimento.
[continua...]
No dia seguinte, faltando apenas um dia para o fim da Terra, Miguel vai ao cemitério deixar flores, e se emociona com a lápide.
"Solitário, mas jamais sozinho"
Com os olhos marejados ele depositou as flores e fez uma prece de agradecimento.
[continua...]
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