O Fim da Terra


Capítulo Cinco - Último Beijo

Quando eles se conheceram não eram mais que meros adolescentes sonhadores, com ambições tão profundas quanto um Playstation podia ser. Ao tempo que ele, com treze anos, gostava de jogos de zumbis e monstros que ele caçava, ela, com doze, gostava dos de luta, adversário contra adversário.
Estavam na mesma escola, e se conheceram por meio de amigos, emprestando jogos um para o outro no intervalo entre as aulas. Nas aulas de matemática, que eram as últimas do período para ambos, eles gostavam de pular o muro da escola e ir para a casa dela, para jogar, ou uma luta mano a mano, ou um embate pra ver quem aguentava mais tempo contra o chefe zumbi da última tela de um dos jogos dele.
Com essas faltas, e, conseqüentemente, a falta de notas em matemática, fizeram com que ele repetisse de ano, mas ele não se importou. No ano seguinte, ficaram na mesma sala.
Assim foi durante anos, e no segundo ano do colegial eles começaram a namorar. Foram amigos durante anos e agora transcenderam isso. Seus amigos achavam lindo a forma como os dois eram juntos; tão completos.
Aos dezenove anos eles se casaram e foram logo morar juntos. Ele trabalhava como auxiliar de escritório em uma empresa próxima a sua casa, e fazia faculdade de administração. Ela cursava psicologia e trabalhava na mesma empresa que ele, só que no setor de marketing.
Ao final de dois anos de casados eles conseguiram tirar férias juntos. Ele pegou seu carro e arrumou as malas. Ela chegou atrasada e nem tomou banho, deu-lhe um beijo e entrou no carro, jogando os sapatos de bico fino no canto da garagem.
No rádio tocava "Suddenly I See" e ela sorria. Pegaram a estrada para a praia, em alta velocidade, como era costume de qualquer um dos dois que pegasse o carro. As curvas passavam rápido e a música era repetida a cada vez que tocava. Eles sorriam, embora não falassem muito.
Numa reta da pista eles se aproximaram e se beijaram, mas ao se afastarem viram que havia um carro parado na pista. Ele desviou, mas ao fazer o carro bateu em uma árvore. Ele ouviu um grito e apagou, quando acordou já estava no hospital, com o ombro cheio de faixas e a perna engessada.
Olhou de um lado e de outro, mas a sala era individual. Apertou freneticamente a campainha e a enfermeira apareceu. Ele pediu informações sobre ela, mas a enfermeira limitou-se a dizer que ela estava na UTI.
As informações foram parciais nos dias que se seguiram, mas no sétimo veio a confirmação: ela havia perdido o movimento das pernas e sofrido uma grave lesão cerebral que a impediria de se comunicar verbalmente com a mesma desenvoltura.

Ele passou os dias internado querendo vê-la, mas a família se recusava a deixá-lo entrar, já que era ele quem dirigia na hora e era tido como total culpado. Ao final de dois meses ele já caminhava normalmente, tendo feito fisioterapia, mas ainda não deixavam-no vê-la e nem ela realmente queria, já que a família fazia pressão para tal.
Com dois dias após "O Comunicado" ela sofreu um inchaço cerebral e perdeu quase todas as funções motoras do lado esquerdo. Sua situação piorou ao ponto de ser inoperável sem o risco de morte, ao mesmo tempo em que isso a levaria para a morte certa.
A família resolveu deixar que ele a visse uma última vez, já que os médicos disseram que seriam suas últimas horas com lucidez para conversar.
Ele saiu de casa com a mesma roupa e foi direto ao hospital. Lá chegando ele encontrou os sogros à porta. Eles o abraçaram e abriram a porta. Lá estava ela, com o mesmo sorriso que tinha antes, só que com cabos em seus pulsos e com o cabelo bem curto graças a uma cirurgia.
Mal conseguindo falar direito ele se ajoelhou à cama pedindo desculpas. Ela, com um dos lados do corpo paralisado e sem poder mexer as pernas, levantou-se como pôde e puxou sua cabeça para junto da dela, sorrindo. Ela o beijou e voltou a se deitar e fechou os olhos, mas mexeu com os lábios as palavras "eu te amo". Ele ficou sentado na cadeira ao lado da cama, vendo-a dormir, mas ela não mais acordou.
No último dia da Terra, ele, que não rezava há anos, agora acreditava em Deus e sabia, inconscientemente, que se fosse alguém melhor do que sempre fora, um dia a veria de novo. Ele perdera tudo o que tinha na vida, mas ganhou a esperança que havia perdido há anos.
Silenciosamente, ele rezou.

"Last Kiss" - Pearl Jam

[conclui na próxima postagem... ]

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