O Fim da Terra


Capítulo Seis - O Último Dia

O mundo vivia seus momentos finais, mas de forma muito melhor. Havia pessoas se abraçando no meio da rua, dentro de supermercados; os poucos que ainda trabalhavam tinham um sorriso pela metade no rosto, mas trabalhavam com o mesmo empenho.
Os casamentos foram elevados, os namoros (que durariam poucos dias) estavam na moda. Os adolescentes gostavam de demonstrar isso em público. As relações entre gays e lésbicas deixaram de ser tabú. Havia casais em cada esquina se abraçando, se beijando, trocando juras de amor e sorrisos seguidos de lágrimas.
Era como viver a utopia dos hippies: paz e amor para todo o mundo. Nos telejornais não havia anúncios de guerras, os assassinatos diminuíram e os roubos já não existiam. O mundo tornara-se um lugar muito melhor, muito mais gostoso de se viver, mesmo com o anúncio do fim iminente; na verdade, só por ele.
As pessoas passaram a gostar de si e do mundo. Passaram a ver o que há de melhor nas pessoas e nelas mesmas.
A desigualdade social que era dominante passou a ser bem menor. Os ricos estavam ajudando os pobres, e os pobres não estavam mais restritos às suas localidades. Pelas ruas se viam pessoas de todos os tipos, de todas as cores. Elas sorriam. Os pobres foram remanejados nos hotéis e pousadas. As pessoas estavam passando a se amar e amar o fato de estarem vivas e em conjunto, pelo fato de ser a última oportunidade de ser bom.

O sol nasceu com um brilho especial naquela que seria a última manhã. Não havia o som dos pássaros, pois os mesmos haviam sido removidos. O vento soprava fresco, a temperatura era refrescante e as pessoas estavam calmas, apesar do que viria.
Todos se sentaram nas ruas, praças, avenidas e altos de prédios ou lajes, esperando por aquele que seria o momento mais esperado desde o primeiro comunicado. Havia sorrisos, abraços e beijos. Crianças correndo e brincando, outras abraçadas com seus pais. Não chovia em nenhum lugar da Terra, o sol brilhava em todo o lado diurno e no lado noturno a noite era clara e com uma lua impressionantemente brilhante.
Mais ou menos as onze da manhã as pessoas foram surpreendidas pelo sol. Ele deixou de ser amarelo intenso e ficou mais brando. Em sua superfície apareceu a mesma silhueta de antes; o mesmo se deu com a lua no lado noturno. A voz era grave, mas calma.
-- Bom dia a todos.
Não houve silêncio, as pessoas responderam com um "bom dia/noite" em todo o mundo.
-- Há dez dias eu lhes avisei contra seus excessos, contra o desgosto que estavam me causando, contra o mal que faziam a si mesmos. Disse que acabaria com o mundo por causa disso. Mas não vou mais.
Desta vez houve o mesmo silêncio de antes e um aperto no coração de todos, não de tristeza, mas de completa felicidade.
-- Eu não gostava mais de vocês humanos pois me desgostavam, mas vocês mudaram nesses dez dias; mudaram como eu não achava que podiam fazer. Vocês haviam perdido algo muito precioso, algo que eu tinha em alta conta, mas recuperaram e compensaram a perda, pois fizeram de forma linda: vocês recuperaram o amor.
"Já não tenho mais motivos para destruir esse mundo nem os que vivem nele, desde que mantenham-se dessa forma. As pessoas que não conseguiram transcender a isso acabam de ser retiradas da Terra.
Ouviu-se um puxão, como o ar que se tira de uma bexiga, e várias pessoas sumiram na multidão.
-- Aos que ficam eu lhes desejo uma vida plena e feliz, com amor e carinho de todas as formas possíveis. Amem-se, sem ver a quem nem os motivos, apenas amem. Façam desse mundo um lugar lindo e jamais me pronunciarei novamente, mas saberão que existo, que olho por vocês e que nos encontraremos quando terminarem seu tempo.
"Aqui me despeço, mas não é uma despedida realmente. Não nos veremos por um tempo, mas até a próxima e eu amo vocês; agora sim eu amo."
O sol voltou a brilhar forte, a lua voltou a iluminar a noite, a silhueta sumiu e as pessoas riam e pulavam.
A mãe e o filho, junto com a neta, se abraçaram sorrindo, sabendo que haviam conseguido tudo graças a Deus. Andando, voltaram para dentro de casa, onde comeram um bolo de chocolate que fora preparado naquela manhã.
Miguel estava no cemitério e agradeceu silenciosamente. Agora ele tinha pelo que rezar e pelo que esperar no outro mundo. Se encontraria com seu amigo, o que tornava a vida melhor de se viver.
Em casa, sozinho, o namorado chorava, sabendo que um dia a veria de novo. Sabia que a vida que levasse o levaria em direção à ela e ao reencontro que preenchia seus sonhos.

O mundo vira o caos e o amor em um período de dez dias. Agora as coisas iriam entrar nos eixos.
Não existia mais preconceito e nem dor.
O sol brilhava, as pessoas sorriam, os pássaros voltaram a cantar e o ar soprava fresco. Era um lindo dia e tudo ia bem. O amor existia.

FIM

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